Primeiro, consegui uma morada, modesta, mas acomodava bem as coisas. Estava mesmo precisando de um porto. cataloguei os livros na estante, em ordem alfabética, deu muito trabalho. Os CDs foram organizados de acordo com o estilo musical. Ficou ótimo! Móveis, quadros, fotos e plantas. Achei lugar para essas coisas materiais que fazem, dos outros, pessoas mais felizes.
Tudo em ordem.
Muita ordem.
Ordem demais.
Foi quando começou aquela vontade. Aquela coisa que não sei explicar, que sempre surge quando tudo está perfeito. Vontade de ver algo acontecer, de... de que... quem sabe se eu...
Foi então que veio a idéia esquisita. Sabe quando você puxa a ponta do lençol e desarruma toda a cama só para ver os travesseiros saírem do lugar? Sabe no jogo de baralho, quando você está perdendo e puxa o forro da mesa só para embaralhar as cartas e encerrar o jogo?
Então. Parei diante da porta da sala, peguei a pontinha da paisagem perfeita e puxei com bastante força. Foi tudo para o alto.
Deu certo!
Certo demais.
Todos os CDs no chão. Alguns ficaram arranhados com a queda. Livros espalhados por toda a casa. Bibelôs e porta-retratos despedaçados. Um desastre.
Vassoura, lixeira, cola especial. Não sabia mais onde ficavam as almofadas. De onde este quadro caiu? Certas coisas ficaram estranhas depois de remendadas, algumas músicas não tocaram mais. Será que o anjinho tinha asas? não sei.
Enfim, pronto. Agora é só sentar e apreciar. Nunca mais deixarei que a desordem tome conta do meu lar. Onde estava com a cabeça? Vai ficar tudo na mais perfeita ordem.
Mas então, aconteceu.
Certo dia, senti uma brisa mais forte se aproximando. Senti-me tomada pela vontade de respirar um ar nunca respirado, uma vontade de abrir os braços, fechar os olhos e ser levada. Uma vontade de que... uma saudade do que poderia descobrir se fosse levantada do chão... era como se...
Era isso que eu estava precisando: Vento entrando pela casa para renovar o ar. Tirar o cheiro de mofo acumulado com o excesso de cuidado.
Não foi por mal! Apenas abri portas e janelas. Era o mofo que incomodava. O mofo assusta mais que a tempestade. E não imaginei que vento fosse algo perigoso.
Mas a ventania, que teve forças para arrancar árvores, não conseguiu me tirar do chão. A tempestade passou, eu fiquei.
Foi o caos.
Remendar o que já havia sido colado foi pior. Explicar por que abri as janelas? Nem tentei. Apenas arrumei. Sob o peso da frustração de não ter do que sentir saudades, arrumei.
Se pudesse entender, juro que explicaria. Mas é essa coisa! Insanidade? É um formigamento, uma demência dominando o corpo. E esse cheiro de mofo. Sempre começa na calmaria essa vontade de ... é como se...
Andréa